O referencial teórico e legal de direitos reprodutivos brasileiros foram delineados a partir dos preceitos da Organização Mundial da Saúde, na perspectiva de extrapolar os aspectos biomédicos alcançando os determinantes sociais do processo saúde-doença e das relações de gênero. A temática do aborto, criminalizado no país, está inserida no debate e implementação das normas e condutas para os profissionais de saúde, incluindo a equipe de enfermagem. Este artigo objetiva explicitar concepções de trabalhadoras da enfermagem de uma maternidade pública paulistana acerca dos impactos do aborto (legal/inseguro) e desfechos reprodutivos relacionados a este sobre seu cotidiano do trabalho. Trata-se de investigação qualitativa, realizada entre 2016 e 2017, com uso de observações participantes e dez entrevistas em profundidade. O conjunto desse material empírico foi analisado por técnica de triangulação de métodos e o processo analítico foi desenvolvido sob referencial conceitual hermenêutico-filosófico dando origem a duas categorias temáticas: “A enfermagem tem sexo”: contextualizando o serviço investigado; O aborto provocado e os desfechos reprodutivos a ele associados Foi possível depreender que as trabalhadoras da enfermagem tinham dificuldade em lidar com o aborto, sinalizando os desafios da superlotação, poucos funcionários e desamparo técnico/psicológico que permeavam esse enfrentamento. Explicitaram julgamentos controversos frente à temática, ora solidários, ora pejorativos. Conclui-se que a experiência cotidiana de trabalho em contextos agravados pela carência de recursos materiais e suporte psicológico era fonte de angústia e desgaste para as entrevistadas e se faz necessário desvelar suas concepções sobre o aborto para efetivação do cuidado pautado na humanização.