Este artigo analisa as dinâmicas de migração partidária subjacentes à ascensão da extrema direita no Legislativo brasileiro, examinando os deputados federais que se filiaram aos partidos de Jair Bolsonaro em dois ciclos eleitorais (PSL em 2018 e PL em 2022). Os achados revelam que o PSL, em 2018, exibiu um índice de novidade excepcionalmente elevado (0,91), com 75% dos deputados eleitos sem experiência eleitoral prévia, enquanto o PL, em 2022, demonstrou maior institucionalização (índice de novidade 0,71) com substancial afluxo proveniente do PSL (31,7% dos migrantes) e de partidos tradicionais de direita. Empregando uma tipologia que distingue leais, migrantes, novatos, membros tradicionais do PL e oportunistas, modelos de regressão logística e MQO (mínimos quadrados ordinários) demonstram que a lealdade ao bolsonarismo foi eleitoralmente rentável: candidatos leais (que seguiram Bolsonaro em sua migração para o PL) e oportunistas (que se filiaram ao PL advindos de outros partidos) colheram enormes benefícios eleitorais, se comparados aos migrantes (que desertaram para outros partidos). Contrariamente à literatura que enfatiza motivações exclusivamente oportunistas para a troca de legenda em sistemas fracamente institucionalizados, o bolsonarismo estabeleceu vínculos políticos suficientemente robustos para reter apoio parlamentar significativo apesar de ruptura organizacional, produzindo efeitos estruturais substantivos sobre a representação legislativa e alterando cálculos estratégicos para além das organizações partidárias formais.