Neste artigo, mobilizamos o conceito-imagem da Ninfa, postulado pelo historiador da arte alemão Aby Warburg, para pensar a performance da personagem feminina que aparece no poema “Descalça vai para a fonte”, de Luís de Camões. Leanor, a moça que caminha pelo vilancete, apresenta características do complexo figural que foi nomeado por Warburg como Pathosformel, uma estratégia para sugestão de movimento em figuras pintadas ou esculpidas que servia como meio de representar, na superfície da tela ou da pedra, um pathos interior. Caracterizada por cabelos ao vento, vestes drapeadas e pés em posição de caminhar, a fórmula migra pela História da Arte, incorporada a uma série de personagens de épocas, espaços culturais e suportes muito diversos. As chamadas Ninfas se caracterizam, portanto, como uma espécie de sobrevivência fantasmal que atravessa o tempo, produzindo cruzamentos de diferentes épocas históricas. Reconhecendo a Leanor camoniana como uma Ninfa, refletimos sobre as implicações da aparição dessa figura na obra do poeta português.
In this paper, we mobilize the image-concept of Ninfa, postulated by German art historian Aby Warburg, to consider the performance of the female character who appears in Luís de Camões’ poem “Descalça vai para a fonte”. Leanor, the girl walking through the villancet, displays characteristics of the figural complex Warburg termed Pathosformel: a strategy for suggesting movement in painted or sculpted figures that served as a means of representing, on the surface of the canvas or stone, an inner pathos. Characterized by windblown hair, draped garments, and feet in a walking position, the formula migrates throughout art history, incorporated into a series of characters from very diverse eras, cultural spaces, and media. The so-called Ninfa are therefore characterized as a kind of ghostly survival that traverses time, creating intersections of different eras. Recognizing Camões’ Leanor as a Ninfa, we reflect on the implications of this figure’s appearance in the Portuguese poet’s work.