A compreensão contemporânea da infância exige o reconhecimento das crianças como sujeitos sociais, históricos e culturais, capazes de produzir sentidos, estabelecer relações, elaborar interpretações sobre o mundo e participar ativamente da construção de suas próprias experiências. Nessa perspectiva, a cultura infantil não pode ser reduzida à reprodução dos conhecimentos e valores produzidos pelos adultos, pois as crianças se apropriam dos elementos culturais disponíveis e os reinterpretam, transformam e ressignificam nas interações com seus pares e com os adultos. O brincar, nesse processo, ocupa um lugar privilegiado, uma vez que constitui uma linguagem própria da infância e um espaço de produção simbólica, negociação, experimentação, criação e expressão de saberes. A escola, especialmente na Educação Infantil, é desafiada a superar concepções que compreendem a ludicidade apenas como recurso metodológico ou estratégia auxiliar para facilitar aprendizagens previamente definidas, reconhecendo-a como dimensão constitutiva da experiência infantil e como direito das crianças. Este artigo tem como objetivo analisar as relações entre cultura infantil, saberes da infância, ludicidade e práticas pedagógicas, discutindo de que maneira a escola pode constituir-se como espaço de escuta, participação, criação e valorização das experiências produzidas pelas crianças. Para tanto, desenvolve-se uma reflexão teórica fundamentada nas contribuições da Sociologia da Infância, nos estudos sobre cultura lúdica e nas políticas curriculares brasileiras, especialmente nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Argumenta-se que valorizar o lúdico implica reorganizar tempos, espaços, materiais, relações pedagógicas e formas de documentação e avaliação, deslocando a criança da condição de receptora de conhecimentos para a posição de sujeito participante e produtor de cultura. A valorização da cultura infantil não significa ausência de intencionalidade pedagógica, mas a construção de uma intencionalidade que reconheça a agência das crianças e estabeleça um diálogo entre seus saberes, suas experiências e os conhecimentos socialmente produzidos.